segunda-feira, 27 de julho de 2009

A Eco Editorial está de site novo

Espie! Está bonito. www.ecoeditorial.com.br

Testemunha



Em Paraty, entre uma tenda e outra, o ipê testemunha realismos fantásticos.

Vingança feminina




Atiq Rahimi na Flip. Não resisti e tietei (de novo!).




Ao corpo inerte, com uma bala alojada na nuca, só resta ouvir. Confissões jamais pensadas, sequer sussurradas, de uma mulher que tem sua vida e sexualidade saqueadas por uma cultura cruel. Ele é a "pedra de paciência". Sem poder reagir, ouve até explodir. A ela, a vingança.




Leia Syngue Sabour - Pedra de Paciência, de Atiq Rahimi.

domingo, 26 de julho de 2009

Milton Hatoum revela Brasil invisível


Milton Hatoum esteve na Flip ao lado de Chico Buarque.

Em "Dois Irmãos", faz o leitor passear pelas ruas de Manaus.

Chico Buarque: anos-luz melhor como compositor


Concorridíssimo. Uma das estrelas da Flip. Mais como o compositor genial que é, e menos como o escritor que engatinha.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Bernardo Carvalho na Flip

Não resisti e também tietei.

Para escrever seu mais recente livro, "O Filho da Mãe", o escritor Bernando Carvalho ficou um mês sozinho na Rússia, captando a atmosfera do lugar.
Para o escritor, o público não se interessa tanto pelo imaginário dos autores. Prefere livros baseados em fatos reais ou que tenham alguma ligação reconhecível com uma realidade do leitor.
Mas na literatura, o leitor viaja em diferentes culturas e essa é a melhor das possibilidades do livro. O deixar-se levar por uma história, independente de reconhecê-la dentro do seu próprio universo, faz do livro um barco "sem rumo, sem porto, sem vela".

Xinran: jornalismo de primeira


A jornalista Xinran foi uma grata surpresa na Flip. Não resisti e tietei.
Desde 1997, Xinran vive em Londres e só por isso conseguiu publicar o excelente livro "As boas mulheres da China", resultado de 20 anos de entrevistas que fez com ouvintes de seu programa de rádio. Em comum, as histórias contadas no livro carregam uma enorme carga de sofrimento e atrocidades que vitimaram as mulheres durante a Revolução Cultural (1966-1976) e a China comunista. O grande desafio da escritora foi fazer essas mulheres contarem suas histórias.
Para conseguir se aproximar das suas fontes e estabelecer com elas um diálogo, desde 1989 Xinran pinta apenas uma unha de vermelho. Tomadas de curiosidade, as pessoas chegam perto de Xinran para saber a razão daquele hábito estranho. Bingo! Começou a conversa.
"As boas mulheres da China" é uma aula de jornalismo. Imperdível. Uma pintura surreal. Para ler em um só fôlego.
"A mídia tem o poder de desorientar as pessoas" Xinran
O que fez da China uma nação em silêncio?
A resignação ao mandamendo de Confúcio: "Nunca questione ninguém", o sistema de leis rígidas e o temor a Mao, que era tratado como Deus.

O mestre

Gay Talese na Flip. Paraty, 2009. Não resisti e tietei.

O jornalista Gay Talese tem 77 anos, é filho de italianos e mora em Nova York. Um verdadeiro mestre do jornalismo.

Confira trechos de sua entrevista a Mário Sergio Conti durante a Flip, na tarde de 4 de julho, em Paraty:

"Sempre quis escrever a história de pessoas simples. Como jornalista, nunca quis estar nas manchetes de jornal e consegui não ser manchete."

"O terreno das pessoas comuns é ignorado por jornalistas e historiadores. Mas é o terreno dos escritores."

"Eu queria ser um jornalista que não escreve notícias. Eu era um rebelde."

"As pessoas que me interessavam estavam em volta de Sinatra."

"Sempre quis escrever visualmente, como um escritor de ficção."

"[O livro] A Mulher do Próximo é resultado da curiosidade, do meu interesse pelas pessoas. Quando o escrevi, humilhei minha mulher."

"O jornalista tem que ter curiosidade, persistência, perseverança, transitar em vários níveis sociais e buscar sempre a verdade."


sexta-feira, 26 de junho de 2009

Em 2008, bancos tiveram mais ajuda que pobres em 50 anos

Da redação da Carta Maior

Segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU), enquanto os países pobres receberam, em meio século, cerca de US$ 2 bilhões em doações de países ricos, bancos e outras instituições financeiras ganharam, em apenas um ano, US$ 18 bilhões em ajuda pública. A ONU alertou que a crise econômica mundial piorará ainda mais a situação dos países mais pobres, agravando os problemas da fome, da desnutrição e da pobreza.

Leia texto completo em http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16044&boletim_id=567&componente_id=9679

Cinemateca inaugura o Instituto Vladimir Herzog

Em cerimônia realizada na noite de ontem, a Cinemateca Brasileira inaugurou o Instituto Vladimir Herzog, com a apresentação do Coral Luther King.

O Instituto abre ao público o acervo sobre a vida e a obra do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), torturado e assassinado durante a ditadura militar.

Ciclo Vlado

A inauguração do Instituto faz parte do Ciclo Vlado, promovido pela Cinemateca, que vai de 25 a 28 de junho, com a exibição de filmes e a apresentação de um projeto de resgate da história das mais de 500 matérias que ao longo de 30 anos ganharam o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Confira a programação completa do Ciclo Vlado:

25.06 QUINTA
19h30 LANÇAMENTO DO INSTITUTO VLADIMIR HERZOG

26.06 SEXTA
SALA CINEMATECA BNDES
15h00 TIRE DIÉ DORAMUNDO
19h30 MARIMBÁS A PRESENÇA DE VLADO

27.06 SÁBADO
SALA CINEMATECA BNDES
10h00 APRESENTAÇÃO DE PROJETO ENCONTRO COM PAULO VANNUCHI
19h00 VLADO – 30 ANOS DEPOIS
21h00 TIRE DIÉ DORAMUNDO

28.06 DOMINGO
SALA CINEMATECA BNDES
14h00 MARIMBÁS A PRESENÇA DE VLADO
18h00 VLADO – 30 ANOS DEPOIS

Ingresso: R$ 8,00 (inteira) e R$ 4,00 (meia)

CINEMATECA BRASILEIRA
Largo Senador Raul Cardoso, 207
próximo ao Metrô Vila Mariana
Mais informações: (11) 3512-6111 (ramal 215)
www.cinemateca.gov.br

terça-feira, 23 de junho de 2009

Resgate do acervo audiovisual jornalístico da TV Tupi




Fonte: Cinemateca Brasileira (texto publicado em http://www.cinemateca.com.br/)

Como resultado do projeto Resgate do Acervo Audiovisual Jornalístico da TV Tupi, patrocinado pelo Conselho Federal Gestor do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos coordenado pelo Ministério da Justiça, a Cinemateca Brasileira apresenta um conjunto de imagens de arquivo organizadas em uma base de dados. São reportagens de telejornais veiculados pela TV Tupi, a primeira emissora de televisão do Brasil, que foi inaugurada em setembro de 1950 e encerrou sua programação em julho de 1980.

O Resgate do Acervo Audiovisual Jornalístico da TV Tupi foi um projeto piloto e seu objetivo é difundir uma parcela da coleção através da digitalização de materiais relativos a alguns anos de funcionamento da emissora. A base de dados será atualizada periodicamente, com acréscimo de reportagens e informações. Ao final do projeto, estarão disponibilizadas 125 horas de imagens históricas de variados telejornais da época, como Edição Extra, Diário de São Paulo, Ultranotícias e Repórter Esso, entre outros.

Os textos de locução dessas reportagens eram lidos ao vivo pelos apresentadores. O Arquivo Público do Estado de São Paulo, através de uma Cooperação Técnica com a Cinemateca Brasileira, realiza neste momento a microfilmagem e a digitalização desses roteiros, que também fazem parte do acervo sob a guarda da Cinemateca Brasileira e serão futuramente disponibilizados ao público.

Fazem parte dos procedimentos realizados pela Cinemateca Brasileira o tratamento de película de 16mm em que eram filmadas as reportagens, a digitalização das imagens em movimento, a catalogação que permite pesquisa por vários termos e assuntos, a disponibilização na internet e a futura articulação com os textos de locução. Esse conjunto de ações possibilita a utilização do acervo da TV Tupi como valiosa fonte de pesquisa e de entretenimento, e como banco de imagens de um acervo histórico único.

A Cinemateca Brasileira planeja o desdobramento desse trabalho na perspectiva da abrangência de todo o período de atividades da TV Tupi, por reconhecer o potencial desse acervo na ampliação do acesso a informações audiovisuais a todo tipo de público.

Assista aos vídeos disponíveis em http://www.cinemateca.com.br/

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Indignação cresce de norte a sul: novos protestos convocados para segunda-feira

Fonte: www.fenaj.org.br

Estudantes de Jornalismo de diversas cidades do país organizam novas manifestações de desagravo à decisão do STF que aboliu a obrigatoriedade da formação universitária para a profissão de jornalista. Os atos estão marcados para esta segunda-feira, dia 22, em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Teresina e Caxias do Sul. Serão simultâneos, a partir das 10h. Em Porto Alegre, haverá manifestação na quarta.

A FENAJ, os Sindicatos de Jornalistas e o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo se engajaram na mobilização e estão convocando profissionais e professores a participarem ativamente.

Também conclamam demais segmentos profissionais, movimentos sociais, parlamentares, autoridades a comparecerem às atividades, levando às ruas o apoio e preocupações que já vêm externando aos jornalistas.

Conforme os Diretórios Acadêmicos dos Cursos de Jornalismo que lideram a organização, serão promovidas passeatas que culminarão com atos e a orientação é para que todos participantes vistam preto, usem nariz de palhaço, levem apitos e empunhem colheres de pau, além de faixas e banners da campanha pela valorização da formação e profissão de jornalista. As manifestações serão simultâneas em todas estas cidades, a partir das 10h desta segunda-feira. Já em Porto Alegre, o Sindicato está convocando mais um ato para quarta-feira.

Veja, a seguir, as informações, cidade por cidade, sobre locais de concentração e trajetos das passeatas.

SÃO PAULO (SP)
DIA: 22/06 – segunda-feira
HORÁRIO: 10h
CONCENTRAÇÃO: em frente ao metrô Consolação - av. Paulista, altura do nº 2163
PASSEATA: até Hotel Reinascence* Para quem é de Campinas, às 8h sairá um ônibus da PUC levando os manifestantes até a capital.

BRASÍLIA (DF)
DIA: 22/06 - segunda-feira
HORÁRIO: 10h
CONCENTRAÇÃO: Praça dos Três Poderes
PASSEATA : até a Esplanada dos Ministérios

RIO DE JANEIRO (RJ)
DIA: 22/06 - segunda-feira
HORÁRIO: 10h
CONCENTRAÇÃO: ABI
PASSEATA: até o Palácio Tiradentes

TERESINA (PI)
DIA: 22/06 - segunda-feira
HORÁRIO: 10h
CONCENTRAÇÃO: Av Frei Serafim (ponto de encontro: Hiperbompreço)

CAXIAS DO SUL (RS)
DIA 22/06 - segunda-feira
HORÁRIO: 10h
CONCENTRAÇÃO: UCS

PORTO ALEGRE (RS)
DIA 24/06, quarta-feira
HORÁRIO: 13h
CONCENTRAÇÃO: Esquina Democrática

Diploma obrigatório para políticos

Pode parecer vingança despeitada de jornalista, mas não é. Essa polêmica toda em torno da não obrigatoriedade do nosso diploma me fez pensar em quais funções ele seria realmente indispensável. Eis que os políticos logo me vieram à cabeça.

Seria bem oportuno exigir a obrigatoriedade do diploma para todos os que quiserem exercer cargos públicos para vereador, deputado, senador e até presidente da República. O curso superior: POLÍTICA. Teriam que ser alunos exemplares. Assíduos. Nada de aulas apenas de terça a quinta, como eles fazem ao "trabalhar" em Brasília. As aulas serão de segunda a sexta-feira.

Quem quiser se candidatar a qualquer cargo político, terá que ter cursado uma faculdade com duração de pelo menos 5 anos. Matriz curricular mínima: ética (nos 5 anos!), cidadania, civilidade, responsabilidade social, administração pública, decoro parlamentar, economia, urbanismo, saúde pública, ações educacionais, história do Brasil e Constituição Federal na prática. TCC: projeto prático e exequível para a erradicação de fome, analfabetismo, corrupção ou mortalidade infantil (o aluno escolhe a modalidade) nas cidades brasileiras com menor IDH.

Isso vale para novos políticos e também para as raposas velhas incrustadas em Brasília pela força do hábito e pelo tempo que não os varreu de lá.

Estou em campanha. Diploma para políticos já!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

"Continuarei contratando apenas pessoas com formação", disse Josemar Gimenez, dos Diários Associados

Do Portal Imprensa » Últimas Notícias
Publicado em: 18/6/2009 11:23
Por Thiago Rosa/Redação Portal IMPRENSA

Na última quarta-feira (17), o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela revogação da exigência do diploma para o exercício do jornalismo. Na ocasião, oito ministros votaram pelo fim da obrigatoriedade. Para o diretor de redação dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, Josemar Gimenez, a decisão não mudará, a curto prazo, o mercado do setor.

"Confesso que já esperava pelo julgamento, mas fiquei surpreso com a decisão do STF e os argumentos do ministro Gilmar Mendes (...) Mas mesmo respeitando a decisão do STF, como comandante de empresa responsável por vários jornais, continuarei contratando apenas pessoas com formação profissional", ressaltou Gimenez.

Na avaliação do diretor do Diários Associados, a decisão do STF pecou ao se basear pelas questões políticas que envolvem a profissão, não considerando as exigências do mercado e as "milhares de pessoas que prestam vestibular para jornalismo todos os anos".

Mesmo ao criticar a revogação da obrigatoriedade, o jornalista acredita que a decisão não implicará, a curto prazo, nas contratações de profissionais. "Nós não temos uma formação específica ainda. Continuaremos dando prioridade àqueles que estão capacitados para desempenhar as funções de jornalista".

A longo prazo, porém, Gimenez ressalta que o parecer do STF possa levar instituições jornalísticas, - como Fenaj, ABI e Sindicatos -, a criar cursos de especialização voltados à prática do Jornalismo. Países como Estados Unidos e Inglaterra já contam com essa medida, que possibilita o ingresso de profissionais de diversos setores na imprensa.

STF vai decidir se cobra diploma de seus jornalistas

Da Agência Estado, em 19/6/2009

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de acabar com a exigência de diploma para jornalistas ocorreu às vésperas de a corte lançar o edital de um concurso para contratar 14 profissionais da área. A comissão de concursos do tribunal analisa agora se cobrará dos candidatos o curso de jornalismo. Antes da decisão, ter concluído a faculdade era um pré-requisito para os aspirantes às vagas. A ideia era divulgar o edital até o fim deste mês, mas agora poderá demorar um pouco mais.

Os 14 candidatos às vagas de analista na Secretaria de Comunicação do STF deverão, no entanto, ter concluído uma faculdade, pois os cargos de analista exige nível superior. A obrigatoriedade do diploma tinha sido imposta por um decreto-lei de 1969. O presidente do STF, Gilmar Mendes, lembrou ontem que há pessoas já exercendo a profissão sem nenhum curso superior. "O controle que existe é controle inicial da própria empresa, depois o controle social, da qualidade daquilo que é divulgado."
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Brasileira das Empresas de Rádio e Televisão (Abert) afirmaram, por meio de seus representantes, que as empresas continuarão contratando profissionais formados em faculdades de jornalismo, apesar da decisão de anteontem do STF. O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murilo de Andrade, demonstrou indignação com a decisão do STF.
"O STF agiu de forma irresponsável. Com a decisão, tornou menor o jornalismo e o jornalista brasileiros, jogando no lixo uma luta de 40 anos em prol da qualificação profissional", criticou Andrade. Um encontro entre o presidente da Fenaj e os sindicatos de jornalistas, hoje em São Paulo, deve definir ações para contestar a decisão. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Sobre o diploma

O fim da obrigatoriedade do diploma não significa o fim da necessidade da formação do profissional em Jornalismo. E nem a dispensa! Não retiro uma vírgula da importância das nossas aulas, do nosso dia a dia com os alunos, da percepção do crescimento deles em função de uma formação com essência, obtida cotidianamente e possibilitada apenas por uma sólida formação acadêmica. Mais do que nunca, é o momento de estudantes de Jornalismo, futuros diplomados, mostrarem que sua formação acadêmica jornalística faz, sim, toda a diferença na vida de quem deseje exercer a profissão com qualidade, ética, seriedade e responsabilidade. Ter o diploma em Jornalismo pode ser o valioso diferencial na vala comum em que irá se transformar o mercado de comunicação. Vamos adiante. Há muito o que fazer!

terça-feira, 24 de março de 2009

Batismo de Sangue


Leia o livro e assista ao filme.

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O Leitor

O que leva Hanna Schmitz (Kate Winslet) a se deixar condenar: a vergonha por não saber ler ou a necessidade de redenção por uma culpa que lhe foi imposta?

Assista O Leitor (direção de Stephen Daldry) e comente.

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Palavra (En)cantada

Quem gosta de cinema, música, poesia e literatura, não pode deixar de assistir Palavra (En)cantada, dirigido por Helena Solberg. E quem ainda não gosta? Convido a espiar da janela desse documentário e se deixar levar por tanta delicadeza, que atravessa gerações, nos depoimentos de Chico Buarque, Hilda Hilst, Lirinha, Lenine, Calcanhotto e tantos outros artesãos da palavra.



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segunda-feira, 23 de março de 2009

Correio Paulistano



O fotógrafo e estudante de Jornalismo Douglas R. Nascimento é um profundo admirador do extinto jornal Correio Paulistano e me enviou um link que nos leva ao texto abaixo. Gostaria de compartilhar com vocês.

"O jornal 'Correio Paulistano' foi o primeiro diário de São Paulo e o terceiro do Brasil, e por muito tempo ostentou o título de grande jornal de São Paulo. Criado em 1854 pelo empresário paulista Joaquim Roberto de Azevedo Marques, o jornal desde seu princípio adotou posições modernas e corajosas, como a defesa intransigente da causa republicana e posteriormente o apoio a Semana de Arte Moderna de 1922."
Leia o texto na íntegra: http://www.correiopaulistano.com/.

terça-feira, 17 de março de 2009

História d'O Pasquim

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Fonte: TV Câmara

“DITABRANDA” EM DEBATE

A briga em que todos perdem





Por Eugênio Bucci em 3/3/2009, publicado originalmente no Observatório da Imprensa (http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=529JDB001)

Hay que "enfurecerse", pero sin perder la "brandura" jamás.

Lá se vão duas semanas do fatídico editorial da Folha de S.Paulo que, após alertar para o risco de tirania que se avoluma na Venezuela, referiu-se de passagem à ditadura militar no Brasil como um regime cujo grau de truculência teria sido relativamente tênue. Por terem preservado ou instituído "formas controladas de disputa política e acesso à Justiça", os governos militares entre 1964 e 1985 teriam pertencido à categoria – até então desconhecida de todos nós – das ditaduras amenas, ou, nos termos do editorial, das "chamadas ditabrandas".
Foi um terremoto no agreste. O neologismo trocadilhesco, meio de pé quebrado, provocou uma erupção vulcânica de cartas à redação. Cartas furibundas. Várias foram publicadas nos dias subseqüentes no "Painel do Leitor" da própria Folha. Entre essas, chamaram bastante atenção, pela contundência, as mensagens dos professores da USP Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato.

Escreveu Maria Victória:
Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda"? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala – que horror!

Fábio Comparato foi mais duro:
O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana.

A ambos, a Folha dedicou uma resposta especial, personalizada, capaz de aturdir boa parte do leitorado:
Nota da Redação – A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.

O sentido de recapitular

Tenho consciência de que, ao recapitular essas passagens aqui no Observatório, sabidamente freqüentado por leitores muito bem informados sobre as turbulências da imprensa, incorro no velho erro de chover no molhado: transcrevo o que todos já sabem. A recapitulação, contudo, cumpre uma função lógica da qual não tenho como me desviar. Essa função lógica se desdobra em dois planos, como exponho a seguir.
O primeiro desses dois planos é, por assim dizer, de ordem formal: refere-se à periodicidade da minha coluna. Em outras palavras, esse plano de ordem formal é quem justifica que eu trate, só agora, e não antes, de um assunto relativamente envelhecido. Sabemos todos que o discurso jornalístico, mesmo quando crítico ou ensaístico, deve se ocupar de novidades. Por que, então, ocupar-me do já sabido? A resposta é simples: porque, para a periodicidade da minha colaboração para este site, que se dá de duas em duas semanas, este assunto ainda é perfeitamente atual. O evento ao qual me refiro, por mais que tenha sido debatido em blogs, sites e publicações de todo tipo, inscreve-se rigorosamente no período que separa a minha coluna anterior, do dia 17 de fevereiro, desta aqui, de hoje, dia 3 de março de 2009. Por isso esperei para falar só hoje. Só aqui, neste Observatório, eu poderia desenvolver os pontos essenciais do que tenho a dizer.

Passemos agora ao segundo plano da função lógica que essa recapitulação vem cumprir. Aí não há nada de razões formais, mas de mérito. É preciso recuperar a sucessão desses três lances – o editorial, depois as cartas e, por fim, a resposta em forma de "Nota da Redação" – para demonstrar o que me leva a escrever. Agora, não falo apenas da forma (a periodicidade) que me permite escrever "só agora", mas do mérito que me impele a escrever.

Quanto a esse mérito, é por demais penoso, para mim, ver essas duas palavras, a palavra "cínica" e a palavra "mentirosa", fixarem-se de modo tão ríspido sobre uma atitude pública de Fábio Comparato e Maria Victória Benevides. Mais penoso ainda seria silenciar diante disso. Por que tanta violência contra eles? O próprio ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, em sua coluna de 22 de fevereiro, ainda que cercado de toda cautela, advertiu:
"Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no Painel do Leitor. Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores."

O termo preciso talvez não fosse "cordialidade", mas urbanidade ou, quem sabe, civilidade. Se não se empenhasse em resguardar as condições para o diálogo, mesmo onde elas pareçam quase impossíveis, é pouco provável que um órgão de imprensa representasse o seu público e influenciasse a sociedade. A lógica defendida por Carlos Eduardo Lins da Silva, portanto, é inatacável porque elementar.

Isto posto, o que chocou na manifestação da Redação foi o ataque deliberadamente pessoal aos dois leitores. O golpe desferido contra eles teve o sentido de expeli-los nominalmente. Haverá, por certo, em defesa da "Nota da Redação", o argumento de que ela apenas reagiu aos termos da carta do professor Fábio Comparato, que já eram pesados, de fato. Qualquer leitor poderá verificar facilmente que o jurista elegeu, em sua crítica ao jornal, alvos personalizados. Ao dizer que "o autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro", ele atingiu pessoas, mais que uma instituição. Sem dúvida, não foi uma fala cordial. O castigo preconizado pelo grande professor de direito parece inspirado em rituais da Santa Inquisição, e, ainda que irônico, é direcionado contra pessoas de carne osso. Portanto, foi Comparato quem primeiro "fulanizou" a discussão.

Quem ganha?

Em uma coluna no dia 24 de fevereiro, na página A2, sob o título de "Ditadura, por favor", o editor de Brasil da própria Folha, Fernando Barros e Silva, assinalou com todas as letras a sua discordância com o editorial do diário em que trabalha. Rechaçou o termo "ditabranda". Ao mesmo tempo, não deixou de criticar o excesso verbal de Fábio Comparato:
"É bem sintomático, aliás, que, ao protestar contra a `ditabranda´ em carta à Folha, o professor Fábio Konder Comparato, guardião do `devido respeito à pessoa humana´, tenha condenado os autores do neologismo a ficar `de joelhos em praça pública´ para `pedir perdão ao povo brasileiro´. Que coisa. Era assim, obrigando suas vítimas a ajoelhar em praça pública, submetendo-as à autêntica `tortura chinesa´, que a polícia política maoísta punia desvios ideológicos durante a Revolução Cultural. Quem sabe, como a `ditabranda´, seja só um palpite infeliz."

Acontece que, mesmo que se admita que a carta tenha ido além do que seria meramente razoável, o argumento de que o jornal reagiu no mesmo diapasão e, portanto, em "legítima defesa", não procede. Pela simples razão de que, se fossem se pautar pelos padrões de etiqueta do leitorado, os órgãos de imprensa converteriam a ofensa aberta no idioma oficial de suas seções de cartas. Aí, qualquer comunicação com o público perderia a viabilidade.

Cabe ao jornal zelar pelas condições do diálogo, e isso por motivos funcionais, mais que morais, mesmo quando zelar pelo diálogo implica sacrifício de orgulho pessoal de um ou de outro. Não há escapatória. Se deixarem de cultivar e de cultuar o diálogo com o seu público, os órgãos de imprensa perderão seu lugar. Também por isso, o ombudsman tem razão.

Digamos assim: ele tem razão e, não obstante, essa razão que ele tem não resolve coisa alguma. Estamos aí, hoje, às voltas com um bate-boca destemperado e ensandecido. A polêmica assumiu proporções de movimentos radicalizados, de parte a parte. Adjetivos periféricos, ou mesmo marginais, ganharam o relevo de conteúdos centrais. De um lado, a associação entre Fábio Comparato e o maoísmo, um volteio estilístico de Fernando Barros e Silva, adquire aos olhos de muitos o estatuto de verdade factual, o que é apenas absurdo. De outro lado, fala-se que a Folha de S.Paulo protegeu e ajudou a ditadura militar, o que, pelo menos a partir do limiar da década de 1980, está longe, muito longe de ser verdade. Caímos numa discussão enlouquecida do acessório, enquanto o principal foi jogado no lixo.

Quem ganha com a radicalização? Apenas os inimigos da democracia – e entre eles não figuram nem Maria Victória Benevides, nem Fábio Comparato, nem a Folha de S.Paulo. Essa briga, do jeito que ficou montada, é um desastre. É um desastre sem lastro de verdade.

Um grande brasileiro

Pelos motivos que já expus, penso que o professor Fábio Comparato exagerou na carta que enviou ao jornal. Como educador enérgico que sempre foi, talvez ele tenha agido como quem quer passar um pito. Errou a mão, ao menos no meu modo de ver, mas isso não o diminui em nada – nem faz dele um stalinista. Considero Fábio Konder Comparato um dos maiores brasileiros vivos. Como jurista, como professor, como exemplo de coerência, tenho em sua figura, há quase trinta anos, um modelo de retidão, de inteligência, de dedicação ao ensino e ao interesse público.
Vi mais de uma geração de políticos, jornalistas, advogados, juízes e outros cidadãos de brilho que passaram pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, ser formatada pela figura desse homem de valor imenso, um valor difícil de aquilatar quando o olhamos de perto. Recentemente, dei uma aula na Escola de Governo que ele fundou. Não há como ficar indiferente a essa experiência. A maneira incondicional com que Comparato se empenhou e se empenha na missão de formar lideranças para capacitá-las a trafegar pelos meandros da gestão pública está acima, muito acima da média. Eu me lembro de uma carta que ele me enviou há mais de vinte anos, que guardo até hoje, em que falava de seu projeto "quixotesco" de criar uma escola de governo. Pois ele a criou e ela é hoje uma realidade em várias cidades.

Também não é verdade que Fábio Comparato tenha se calado sobre as brutalidades cometidas pelos regimes de esquerda. Não é verdade. Tenho notícias de que ele e Maria Victória, entre outros, já em 1989, assinaram um documento que foi entregue a Fidel Castro condenando os fuzilamentos de militares cubanos por suposto envolvimento com o narcotráfico. Eles também se manifestaram contra a política do regime chinês em relação ao Tibet. Há inúmeros textos de Comparato em que o compromisso com a defesa da vida humana, acima das ideologias, é claro. Mais que isso, ele infundiu essa mentalidade de defesa da vida em mim e em vários outros, melhores do que eu, que hoje atuam nas mais diversas áreas profissionais. Ele jamais nos ensinou a fechar os olhos para as atrocidades dos regimes de esquerda. Para não falar de modo vago, cito dois trechos de um de seus trabalhos recentes, o livro Ética, publicado em 2006 pela Companhia das Letras, que não deixam dúvida sobre o que ele pensa das tiranias ditas de esquerda. As duas passagens estão na página 347:
"Os Estados comunistas descambaram, todos eles, para a institucionalização do abuso de poder, chegando mesmo, alguns deles, ao totalitarismo."
(...)
"A questão central da relação de poder, no seio da sociedade, não é a de se saber como suprimi-la, mas sim a outra, muito mais delicada e complexa, de se instituir um eficiente sistema de controle do poder, em todos os setores – econômico, político, religioso, cultural etc. –, por aqueles que devem a ele submeter-se. Mas essa questão, lamentavelmente, não foi enfrentada por Marx."

A esquerda brasileira, desgraçadamente, tem os seus oportunistas, seus ladrões, tem os cínicos, os mentirosos, gente que protege a bandalheira e nela se lambuza, os tipos mal-intencionados que transformam em atos de heroísmo os crimes comuns e vulgares praticados pelos apaniguados. Tudo isso é fato. Mas Maria Victória Benevides e Fábio Konder Comparato sempre foram e continuam sendo o oposto disso. Não há registros de que tenham se dobrado aos encantos do poder – de direita ou de esquerda. Não há indicadores de vantagens materiais que lhes tenham sido entregues pela adesão a uma causa. São brasileiros que engrandecem este país e esta gente. Você pode discordar deles e de alguns arroubos que podem cometer, como qualquer um de nós. Mas não se pode desqualificá-los sumariamente. Eles não são cínicos nem mentirosos. Eles são maiores, muito maiores.

Esquisitices e irregularidades

Quando digo que essa briga é um desastre, penso nas radicalizações que empalidecem ou mesmo soterram a verdade e conduzem os contendores à escuridão. Voltemos o nosso olhar para o outro lado dessa torcida armada, voltemos o nosso olhar para o lado que agora ataca ferozmente a Folha de S.Paulo. O que vemos? Vemos um turbilhão que quer caracterizar a Folha como um pilar da ditadura – ou, pior, da "ditabranda". Cair nessa armadilha retórica é uma temeridade – e até mesmo os melhores, quando movidos pela raiva repentina, embarcam nessa falácia.
Eu era estudante de direito e de jornalismo quando militava numa organização trotskista, a OSI (Organização Socialista Internacionalista). Devia ser 1980, talvez 1981. Cabia a mim secretariar uma célula da organização na Faculdade de Direito da USP. Uma manhã, indo a pé da Rua Riachuelo para o Largo de São Francisco, passei por uma banca de revistas e vi lá uma edição da Folha da Tarde com uma chamada que me desconcertou. Eles publicavam na íntegra o estatuto da OSI. Aquilo era produto de espionagem policial, coisa de alcagüetagem, não de reportagem. O que senti na época é que ali estava um diário a serviço da repressão, não do leitor, não do cidadão. Isso eu vivi e isso é verdade.

Outra coisa é a Folha de S.Paulo. Ela é, de fato, um dos melhores jornais do país, por qualquer critério que se queira analisá-la. Em 1984, ao abraçar a campanha pelas Diretas Já, a Folha desmistificou essa história de neutralidade jornalística. Não há neutralidade entre a democracia e a ditadura. Nesses casos, a imprensa tem, sim, um partido: o partido da liberdade. Fora da liberdade, a imprensa morre. As reportagens de Ricardo Kotscho marcaram época – e com justiça. Depois, em 1992, poucos enfrentaram a corrupção do governo Collor com tanta coragem quanto a Folha de S.Paulo, que chegou a receber invasões de policiais em sua sede, com atitudes de intimidação inimagináveis, além de sofrer processos ameaçadores, conduzidos por má fé e por outras baixezas.

A Folha modernizou o jornalismo no Brasil como poucos outros jornais. Alguns falam mal dos seus "manuais de redação", mas, em que pesem seus excessos, eles trouxeram mais parâmetros de mais objetividade e mais olhar crítico para o repertório da imprensa. A Folha radicalizou corajosamente a sua própria transparência interna. Investiu com tudo na instituição do ombudsman. Adotou a pluralidade como regra e, ainda hoje, talvez seja o jornal que mais longe leva o princípio da pluralidade de opiniões – tanto que publica não apenas as cartas dos leitores que divergem agressivamente de seus editoriais como dá lugar à opinião dissidente de um de seus editores.

A Folha não é "a direita", como dizem. Ela publica também a direita, mas publica a esquerda e o centro: espelha o debate público na ebulição de suas esquisitices e de suas irregularidades. Nesse sentido, a Folha faz bem em não admitir que ninguém lhe diga o que ela deve fazer ou deixar de fazer. Ela ergue acima de tudo a bandeira de sua própria independência e, assim, realiza a razão de ser da imprensa e cumpre seu papel.

Uma briga desastrosa

O que assinalo aqui são fatos, não são opiniões. A democracia brasileira deve muito à Folha de S.Paulo e à conduta jornalística que ela adotou de 1984 para cá, pelo menos. Não reconhecer isso é um erro crasso. E perigoso. Repito: isso é história, são fatos transitados no curso do tempo. Temos de ter o mínimo de abertura intelectual para nos dar conta da dimensão desses fatos e extrair deles o seu devido sentido.

Por tudo isso, essa briga toda é um desastre. Vão perder com ela os intelectuais minimamente honestos e vai perder a Folha. A "Nota da Redação" contra Fábio Comparato e Maria Victória é um ponto fora da curva – e deveria ser tratada como tal. A adoção do termo "ditabranda" é um "palpite infeliz", no dizer de Fernando Barros e Silva – e deveria ser tratada como tal.
Para falar a verdade, quando li aquele editorial, eu nem fiquei tão abespinhado assim. Essa história de "ditabranda" soou, para mim, como um remake piorado de algo que dizíamos no movimento estudantil do meu tempo, num trocadilho que já me parecia meio pobre de imaginação: em vez de ditadura, falávamos "ditamole". Sem graça, por certo, mas era o que falávamos. Zombar da ditadura era um esporte estudantil bastante difundido naquela virada dos anos 1970 para os 80.

Em 1983, participei de uma chapa para o Centro Acadêmico "XI de Agosto", chamada "The Pravda" (que por acaso ganhou duas eleições seguidas), que se referia ao regime militar como "Remil". Era uma piada que fazíamos para espicaçar o que restava de rabugice autoritária naquele cadáver da ditadura e também de caçoar da mania de siglas tão difundida na administração federal. Era uma febre pavorosa, que, não por acaso, persiste até hoje. Brasília é a Meca das siglas, uma obsessão burocrática que atravessa os governos sem dar sinais de enfraquecimento. Siglas são sinônimos de eficiência administrativa num mundo sem administração democrática.

Mas agora, como já disse um leitor, parece que "o caldo entornou". De um lado e de outro, temos gente que tem razão brandindo argumentos sem razão. Sei que o alerta que lanço aqui não vai levar a nada. Sei que vou ser fuzilado pelos dois lados, como sói acontecer. Não importa. Digo que há mais em comum entre a história da Folha e a trajetória de Fábio Comparato e Maria Victória Benevides do que entre a Folha e a selvageria dos que agora jogam lenha nessa fogueira insensata. Um pouco de calma, um pouco de juízo, um pouco de humildade e as coisas teriam sido diferentes. Mas talvez seja tarde.

A fúria, assim como o furor, é uma emoção compreensível – mas a brandura talvez pudesse nos aconselhar um pouco. Entre nós foi sempre assim: a chegada do colonizador foi mais branda, a proclamação da independência passou lisa, a abolição da escravatura não nos custou uma guerra civil, a república brotou de meia dúzia de gritos... até a ditadura militar – por que não? – foi "menos pior" que outras, ainda que tenha sido infame e inaceitável. Será que só as nossas brigas irracionais precisam ser tão sanguinárias, tão incendiárias, tão alucinadamente inúteis?

segunda-feira, 16 de março de 2009

Imprensa Alternativa


A luta para continuar independente
Por José Reinaldo Marques

Publicado em http://www.abi.org.br/paginaindividual.asp?id=591 , acesso em 02/09/2005

Do ponto de vista histórico, a imprensa alternativa no Brasil surgiu com os movimentos de oposição criados pela esquerda e como proposta editorial alternativa aos veículos da grande imprensa, acusados de defenderem os propósitos da minoria burguesa em detrimento do interesse público. Mas, afinal, qual é o verdadeiro papel da imprensa alternativa brasileira? Nos anos 60 e 70, durante a ditadura militar, nasceram no Brasil jornais, como O Pasquim (1969), Opinião (1972), Movimento (1975) e mais adiante Em Tempo (1977), que faziam um jornalismo corajoso de oposição por entender que seriam um contraponto à grande imprensa que era acusada de ter colaborado e se beneficiado com o Golpe de 64, além de não oferecer aos leitores um noticiário independente e crítico ao regime imposto ao País. Ao analisar esse período, o jornalista e professor Perseu Abramo (1929—1996) escreveu um ensaio intitulado “Imprensa alternativa: alcance e limites”, em que ressaltava o caráter polêmico do tema, por ser difícil “caracterizar com precisão o papel da imprensa alternativa dos anos 60. (...) No sentido estrito do termo, essa imprensa nunca foi de fato alternativa à chamada grande imprensa ou imprensa burguesa”, porque os leitores não dispensavam a leitura dos grandes periódicos, como Correio da Manhã ou o Jornal do Brasil para se contentar com a leitura de Opinião ou Movimento.
Na opinião do veterano Alberto Dines, diretor do Observatório da Imprensa, quem começou a estabelecer o modelo de imprensa nanica de oposição no Brasil foi o jornalista José Maria Rabêlo, nos anos 50, com o jornal Binômio, em Minas Gerais, que investia contra o Governo de Juscelino Kubitschek e que teve boa aceitação pública: — Hoje não há imprensa alternativa, o que existe é a mídia alternativa, a partir dos lançamentos dos sites, blogs etc. Acho muito difícil se conseguir traduzir em termos contemporâneos as experiências dos anos 60 e 70. Nós do Observatório da Imprensa, em 1994, chegamos a pensar em lançar um jornal, mas percebemos que seria inviável financeiramente e optamos pela publicação eletrônica que está no ar desde 96. Para o Presidente da Associação para o Desenvolvimento da Imprensa Alternativa (Adia), Achille Lollo, é preciso fazer uma distinção entre o que era a imprensa alternativa há três ou quatro décadas e os veículos que circulam no presente: — No passado, alguns desses jornais foram considerados alternativos porque formavam uma opção à grande imprensa que circulava no regime militar. Por isso, a fragilidade tecnológica, organizativa e financeira se superava com o espírito de militância. Aquela imprensa alternativa morreu não só pelas difíceis condições de trabalho devido à censura, mas, sobretudo, pelos altos custos de produção. Lollo acha que o golpe fatal foi dado após o processo de democratização do País, quando os grandes grupos de comunicação começaram a cooptar os melhores jornalistas e gráficos daqueles jornais: — Isso fez com que as pequenas e médias publicações ficassem cheias de dívidas e sem jornalistas brilhantes para produzir edições interessantes e continuar atuando de fato como uma imprensa alternativa. A Adia foi fundada no Rio em maio de 1996, no momento em que era fechado o tablóide semanal Nação Brasil, publicado com o fundo do sindicato dos petroleiros: — Tínhamos como proposta editorial construir um órgão de imprensa alternativa independente e de esquerda, cuja função social seria assessorar e apoiar todos os projetos de imprensa elaborados por entidades do movimento popular. O semanário Nação Brasil acabou virando Jornal Nação Brasil e, depois, Revista Nação Brasil, que hoje circula com outras duas publicações trimestrais: Critica Social e Conjuntura Internacional. Discriminação A maioria dos proprietários ou editores-chefes de veículos de pequeno e médio porte acha que um dos graves problemas que enfrentam é o preconceito do mercado publicitário. O jornalista Ricardo Rabêlo, diretor do carioca Bafafá, afirma que isso não mudou com a democratização do País: — Muitas vezes, sequer somos recebidos pelas agências. Acredito que, por desinformação ou falta de visão, elas ainda não perceberam o filão que representa o mercado alternativo.
Achille Lollo, por sua vez, diz: — Durante o regime militar, existiam dezenas de jornais alternativos. Hoje, em plena democracia, a ditadura de mercado engoliu as publicações, enquanto as grandes redes de TV e os jornais ligados a poderosos grupos de mídia receberam empréstimos superfacilitados do BNDES. Quando era Ministro das Comunicações, o Gushiken foi muito claro com os representantes dos veículos Brasil de Fato, Caros Amigos, Correio da Cidadania e Reportagem, que foram pedir anúncios do Governo Federal em 2002: “Se quiserem publicidade, devem apoiar o Governo!”Para tentar reverter esse quadro, Lollo conta que os representantes da imprensa alternativa encaminharam em maio de 2004 ao deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) — eleito com o apoio da mídia alternativa e advogado dos jornais Opinião e Movimento no período da ditadura — um documento reivindicando o direito de concorrer às verbas publicitárias do Governo: — Infelizmente, este foi um dos tantos documentos que foram para o Congresso e lá morreram. Não sei o que o Greenhalgh fez com o documento, nem se este ainda existe. O deputado alega não ter recebido o documento e promete remetê-lo para a Secretaria de Comunicação ou o Ministério das Comunicações se ele chegar às suas mãos, pois acha justa a reivindicação dos meios alternativos: — É preciso democratizar o acesso às verbas publicitárias oficiais. Os jornais alternativos e populares têm direito a receber esses recursos.
Legislação
Beatriz Bissio, diretora da Cadernos do Terceiro Mundo, confirma “a discriminação asfixiante” sofrida pelas publicações classificadas como alternativas. Segundo ela, a revista atravessa um momento de dificuldade: o último número circulou em junho deste ano: — Acho que devíamos ter aqui a mesma ferramenta jurídica de países como Argentina e Uruguai, onde uma legislação específica regula a distribuição da publicidade oficial. O Estado é obrigado a distribuir verbas publicitárias entre todos os meios de comunicação e os critérios que contam são aspectos regionais, de tiragem e de tempo de atuação no mercado. Beatriz espera que essa situação seja apenas momentânea e afirma que a Editora Terceiro Milênio, responsável pela revista, não vai abandonar o projeto, “até porque são inúmeras as manifestações de lealdade por parte de leitores e assinantes”. — Eles dizem que há um vazio deixado pela revista e, até o ano que vem, esperamos recuperar a periodicidade mensal.
A Cadernos do Terceiro Mundo foi criada por jornalistas foragidos das ditaduras instaladas na América do Sul nos anos 70 e lançada em Buenos Aires, em 1974, por Neiva Moreira — exilado brasileiro —, Beatriz Bissio e dois argentinos, com uma proposta editorial de abordar não apenas questões latino-americanas, mas também de países da África e da Ásia que lutavam contra a colonização. Diz ela: — Tínhamos matérias sobre as guerras de libertação em Angola e Moçambique, os conflitos no Oriente Médio e a resistência ao apartheid, na África do Sul. E falávamos da América Latina para latino-americanos que, de certa forma, desconheciam aspectos importantes da própria realidade, devido à censura e à falta de elos de comunicação na região. É perfeito chamar a ótica com que tratávamos os assuntos de alternativa, pois nossa visão era contrária a muitas das bandeiras defendidas pelos grandes veículos de comunicação.
Contraponto
Em São Paulo, Nilton Viana, editor-chefe do semanário Brasil de Fato, de circulação nacional, diz que os jornais independentes — como prefere chamar — surgiram da necessidade de os movimentos populares terem os seus próprios meios de comunicação: — Na luta por uma sociedade justa, fraterna e igualitária, a democratização dos meios de comunicação é fundamental. No nosso jornal, o principal objetivo é justamente fazer o contraponto aos veículos capitalistas. Lançado em 25 de janeiro de 2003, no Fórum Social Mundial de Porte Alegre, o Brasil de Fato começou a circular oficialmente em 8 de março do mesmo ano e hoje alcança a tiragem de 50 mil exemplares. A redação funciona com um editor-chefe, quatro editores, quatro repórteres, uma secretária de redação e três estagiários, além de contar com colaboradores no Brasil e no exterior. Nilton é otimista em relação à qualidade jornalística dos veículos alternativos. Para ele, “a esquerda brasileira conta com os melhores profissionais de imprensa do País”. — No Brasil de Fato, organizamos o que chamamos de comitês de apoio, que constituem uma parte vital da estrutura de funcionamento do jornal. Eles são formados em cada Estado — já os temos em 20 — e funcionam como agências de notícias e divulgadores do nosso produto editorial. Sem eles, ficaríamos restritos ao eixo Rio—São Paulo, reproduzindo a tradição da mídia capitalista. A idéia é que no futuro, quando circularmos diariamente, esses comitês se transformem em sucursais.
Visão crítica
Arthur Cantalice — 80 anos de idade e há 22 colunista do Correio da Lavoura, semanário de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense — tem uma visão muito crítica em relação aos veículos alternativos. Para ele, a grande maioria tem baixa qualidade editorial e funciona sem profissionais. A culpa, diz, é dos donos desses jornais, que geralmente alegam não ter condições financeiras para remunerar jornalistas: — Muitos colunistas acabam cumprindo o papel dos repórteres, função que há muita gente exercendo sem ser do ramo. São professores, médicos e gente de outras profissões que escrevem sobre assuntos ligados às suas atividades.
O próprio editor do Correio da Lavoura, Robinson Belém de Azeredo, herdou o jornal da família — seu avô, Silvino de Azeredo, fundou o Correio da Lavoura 88 anos atrás — e não é jornalista: — Ele escreve bem, mas nunca trabalhou em outro jornal, não conhece o dia-a-dia de uma redação — diz Cantalice. — Acho que hoje o principal desafio da imprensa alternativa é a profissionalização; só assim ela poderá fazer um jornalismo de qualidade. No entanto, é um objetivo difícil de ser atingido, porque os veículos não contam com o interesse dos seus proprietários, que só pensam na arrecadação de verbas oficiais e põem o jornalismo em segundo plano. Em tese, ele acredita que, de modo geral, os jornais independentes não sabem aproveitar o direito assegurado pelo estado democrático para expor o que é preciso sobre o processo político e outros assuntos de interesse público: — Infelizmente, os donos de pequenos jornais não se convencem de que não se deve trocar a opinião pelo anúncio. Neste aspecto, saúdo o Correio da Lavoura, que ainda mantém a sua tradição crítica.
Qualidade
A teoria da baixa qualidade editorial dos jornais de médio e pequeno porte, ressaltada por Arthur Cantalice, não é integralmente aceita por vários colegas que atuam no mesmo seguimento. Beatriz Bissio, por exemplo, considera difícil a sobrevivência de veículos que põem os interesses pessoais dos proprietários acima do interesse social. No quesito qualidade, ela ressalta que só há sobrevivência no meio de comunicação se houver conteúdo. Cita também a importância dos jornais de bairros, que, apesar de muitas vezes serem feitos de forma amadorística, abrem espaço para debates sobre os problemas que afetam grande parcela da população: — Vale lembrar que eles surgiram antes que a grande mídia se apropriasse dessa boa idéia e usasse seu poder para entrar nesse segmento, ao descobrir que havia aí um potencial muito grande e um mercado onde se expandir.
Luiz Falcão, diretor de redação do jornal A Verdade, de Pernambuco, diz que, apesar das dificuldades que os independentes enfrentam, é impossível falar da história da imprensa brasileira sem falar no segmento alternativo: — O que houve após o fim do regime ditatorial foi que muitos jornalistas que trabalhavam nos jornais independentes se incorporaram aos grandes periódicos e isso enfraqueceu esse segmento da imprensa.
A Verdade, segundo Falcão, foi lançado há cinco anos com inspiração no extinto Movimento e a proposta de ser um órgão a serviço da emancipação da classe trabalhadora: — Nos primeiros números, sofremos muito. Tínhamos muita vontade, mas faltava experiência. Felizmente, nunca tivemos que recolher uma edição. Com tiragem de 7 mil exemplares e circulação mensal, A Verdade é lido principalmente por universitários, secundaristas e trabalhadores. Como estratégia de propaganda e distribuição, são montadas brigadas de vendas do jornal nas portas de fábricas: — No Rio de Janeiro, temos uma boa venda nas metalúrgicas. Realizamos três brigadas por mês e também contamos com uma rede de militantes que vendem o jornal em suas vizinhanças e seus locais de trabalho.
Monopólio
Carlos Lopes, diretor de redação do Hora do Povo, lançado em São Paulo em 1979, não gosta de usar o termo alternativo para classificar os jornais que estão à margem das grandes empresas de comunicação. Para ele, é natural que as várias tendências que existem na sociedade tenham veículos próprios: — O que não nos parece natural é a existência de um monopólio de mídia uniforme e comprometido com interesses antinacionalistas, antidemocráticos e antipopulares. Ele destaca que a década de 60 “não foi exatamente a do surgimento de um jornalismo alternativo”, mas a do esmagamento da imprensa nacional e popular que havia antes de 1964, “sobretudo da Última Hora, cuja herança temos como referência”. — Os integrantes do cartel da mídia defendem interesses opostos aos do povo e do País. O jornal Hora do Povo circula às segundas e quartas-feiras, com tiragem média de 50 mil exemplares por edição, e também sofre com a falta de recursos, segundo Carlos Lopes: — A falta de recursos — isto é, o monopólio do dinheiro em mãos de certos órgãos — certamente é um problema, mas não afeta nossa qualidade; é, especialmente, um obstáculo à ampliação da distribuição e da tiragem.
MercadoRicardo Rabêlo, do Bafafá, concorda que as barreiras a vencer são as da comercialização e da profissionalização: — Para ser sincero, não há mercado de trabalho na imprensa alternativa e a comercialização no setor é complicada. Hoje sou 70% empresário, 30% editor. E, por enquanto, não vejo grandes perspectivas de crescimento.
Ricardo é filho do jornalista José Maria Rabêlo, criador do jornal Binômio, de Minas Gerais, fechado pelos militares no golpe de 64 e considerado um dos precursores da imprensa independente brasileira. Segundo ele, o Bafafá nasceu “da ausência de veículos de opinião no Rio e seu nome foi proposital para criar polêmica em torno de temas da cidade, do País e do mundo”. O tablóide mensal não tem redação ou folha salarial, apenas colaborações, e seus 10 mil exemplares circulam nas Zonas Sul e Centro do Rio, em Búzios, no litoral fluminense, em Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília: — Somos um jornal de esquerda não sectário que quer debater as mazelas da sociedade — enfatiza Ricardo.

Passado e futuro
Os espírito combativo dos anos de chumbo, em que surgiram títulos como Movimento e Opinião, parece resistir. Apesar dos desafios, muitos editores acreditam na recuperação e sobrevivência da imprensa alternativa, apostando no talento, na criatividade e na seriedade de seus objetivos para continuar circulando. Mas todos estão conscientes de que, num mundo globalizado e capitalista, boa vontade e ideologia não são suficientes para mantê-los nas bancas: é preciso profissionalizar as redações e virar um mercado real e seguro para atrair os bons profissionais da imprensa. Carlos Lopes, da Hora do Povo, diz que à medida que as forças e os interesses nacionais e populares cresçam na sociedade, a imprensa que os representa tenderá a crescer naturalmente: — Este é um processo que, aliás, já está em curso há algum tempo — afirma. Luiz Falcão, do jornal A Verdade, sugere que a questão dos recursos seja enfrentada coletivamente e acha que, na área de recursos humanos, a onda de demissões nos grandes jornais favorece os pequenos e médios veículos: — A situação atual impõe uma reflexão que pode fortalecer a imprensa alternativa. A liberdade para expressar opiniões é o principal para um jornalista, e isso o meio alternativo garante.
Nilton Viana, do Brasil de Fato, considera a questão financeira fundamental e se diz favorável à criação da Associação Nacional dos Jornais Alternativos (AJA), movimento lançado no Rio de Janeiro: — Acho a iniciativa muito positiva, pois precisamos de uma entidade que proteja nossos interesses, já que é quase impossível montar um jornal independente sem a ingerência do poder econômico do grande capital. E os veículos alternativos não devem abandonar as bandeiras que levaram ao seu surgimento. Devemos somar esforços para conseguir a viabilidade financeira, mas também devemos continuar lutando pela democratização da comunicação em nosso País. Nas palavras do professor Perseu Abramo, mesmo sem conseguir alcançar todos os seus objetivos a mídia alternativa surgiu como opção ideológica e política da classe trabalhadora frente ao sistema capitalista: — Inegavelmente, foi uma das forças que abalaram a ditadura e abriram perspectivas de mudanças democráticas que ainda estão por se realizar.

Tempos Modernos

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Análise da sociedade de massa e alguns de seus traços mais marcantes: reificação e alienação.

Entenda o caso Vladimir Herzog



  • O jornalista Vladimir Herzog de 38 anos, casado, pai de dois filhos e diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi encontrado morto, supostamente enforcado, nas dependências do 2ª Exército, em São Paulo, em 25 de outubro de 1975. No dia seguinte à morte, o comando do Departamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), órgão de repressão do exército brasileiro, divulgou nota oficial informando que Herzog havia cometido suicídio na cela em que estava preso.

  • A versão oficial da morte foi refutada pelos movimentos sociais de resistência à ditadura militar. Uma semana após a morte do jornalista, cerca de oito mil brasileiros participaram de uma missa ecumênica organizada por D. Paulo Evaristo Arns, pelo reverendo James Wright e pelo rabino Henri Sobel.

  • Três anos depois, no dia 27 de outubro de 1978, o processo movido pela família do jornalista revelou a verdade sobre a morte de Herzog. A União foi responsabilizada pelas torturas e pela morte do jornalista. Foi o primeiro processo vitorioso movido por familiares de uma vítima do regime militar contra o Estado.

  • No dia 18 de outubro de 2004, o Correio Braziliense divulgou duas fotos que seriam de Herzog em sua cela no DOI-CODI. As imagens seriam inéditas e reforçariam a tese de que o jornalista havia sido torturado antes de ser morto. Na única imagem conhecida até então, Herzog aparecia enforcado.

  • Clarice Herzog, viúva do jornalista, teria confirmado ao Correio que as fotos seriam mesmo do marido.

  • O Exército brasileiros divulgou uma nota oficial se posicionando sobre a divulgação das supostas fotos inéditas, que foi mal vista e duramente criticada por movimentos sociais e entidades como a Federação Nacional dos Jornais (Fenaj) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A nota dos militares é a seguinte:
    "Á época, o Exército brasileiro, obedecendo ao clamor popular, integrou, juntamente com as demais Forças Armadas, a Polícia Federal e as polícias militares e civis estaduais, uma força de pacificação que logrou retomar o Brasil à normalidade". Afirma, ainda, "que o movimento de 1964, fruto de clamor popular, criou, sem dúvidas, condições para a construção de um novo Brasil, em ambiente de paz e segurança".

  • O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou uma retratação por parte do Exército e do Ministério da Defesa. Assim, no dia 19 de outubro, após reunião entre Lula, o ministro José Viegas e comando militar, general Francisco Roberto de Albuquerque, comandante do Exército, afirmou que a forma como o assunto foi abordado pela sua assessoria não foi "apropriada e condizente com o momento histórico". A segunda nota oficial dos militares afirma que somente a ausência de discussão interna sobre o assunto pode ter sido responsável pela divulgação da primeira nota oficial. "O Exército também não quer ficar reavivando traumas da sociedade brasileira", garantiu o comandante Albuquerque.

  • Em entrevista à imprensa, no mesmo dia, o ministro da Defesa classificou a primeira nota do Exército de "inaceitável", e disse que a nova versão da nota oficial encerra o assunto sobre o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. "Assunto encerrado. Bem resolvido. A nota esclarece definitivamente as coisas ao agravo do presidente da República e do ministro da Defesa", disse.

  • No dia 21 de outubro, foi divulgado que as supostas fotos inéditas de Herzog faziam parte do arquivo da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e teriam sido divulgadas à imprensa em 1997. Na época, ninguém teria relacionado a foto do homem nu a Herzog.

  • No mesmo dia, o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, afirmou que a Direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), lhe comunicou "que as fotos publicadas na imprensa durante esta semana não correspondem ao jornalista Vladimir Herzog, morto pela repressão em outubro de 1975". As imagens seriam produto de uma investigação ilegal conduzida em 1974 pelo antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e que, por este motivo, o nome do homem fotografado não poderia ser divulgado.

  • No dia 22 de outubro, o perito Ricardo Molina, do Instituto de Pesquisa do Som, Imagem e Texto, da Universidade de Campinas, contrariou Miranda e a Abin sustentando no jornal O Estado de S.Paulo que pelo menos duas das três fotos que estudou são de Vladimir Herzog. Ao mesmo tempo, a viúva Clarice Herzog voltou a afirmar que ao menos uma das fotos é realmente do marido.

  • Ainda no dia 22, a Folha de S.Paulo publicou uma entrevista com o homem que seria o personagem das fotos divulgadas pelo Correio. Seria o padre canadense Leopoldo d'Astous, pároco durante 31 anos na Igreja de São José Operário, em Brasília, que foi investigado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) de 1972 a 1974 por envolvimento com grupos de esquerda. Ele teria sido fotografado em 1974, um ano antes da morte de Herzog.

  • Após reunião com o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), Nilmário Miranda, no dia 28 de outubro, a viúva de Herzog, Clarice, voltou atrás em suas afirmações e negou que as fotografias divulgadas fossem de seu marido.

Fonte:

Redação Terra - http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI407607-EI306,00.html

Foto: Arquivo Agência Estado

O que é o Prêmio Vladimir Herzog

1. O Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, instituído em 1979 pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo; Comissão Executiva Nacional dos Movimentos de Anistia; Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ; Associação Brasileira de Imprensa - Seção São Paulo - ABI; Ordem dos Advogados do Brasil - Seção São Paulo - OAB/SP; Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e família Herzog tem por objetivo:
a) Reconhecer e premiar os jornalistas que, através de seu trabalho, colaboraram com a promoção da cidadania e dos Direitos Humanos e Sociais.
b) Homenagear personalidades, profissionais e veículos de comunicação que se destacaram na defesa da cidadania e dos Direitos Humanos e Sociais.
c) Reverenciar a memória do jornalista VLADIMIR HERZOG, preso pela ditadura militar, torturado e morto nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, no dia 25 de outubro de 1975.

Fonte: Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo
http://www.jornalistasp.org.br/index.php?option=content&task=view&id=147

Quem foi Vladimir Herzog (1937-1975)

O jornalista Vladimir Herzog nasceu em Osijek na Croácia e chegou ao Brasil aos 9 anos de idade. Começou a carreira de jornalista em 1959 no jornal O Estado de São Paulo. Foi repórter, redator e finalmente chefe de reportagem do jornal. Em 1965, foi para Londres onde trabalhou como produtor e locutor da BBC. De volta ao Brasil trabalhou durante 5 anos como editor cultural da revista Visão. Em 1971 elaborou uma extensa reportagem de capa para a revista sobre os problemas das TVs educativas no Brasil. Em 1973 passou a trabalhar como secretário do jornal "Hora da Notícia" na TV Cultura e em seguida assumiu o cargo de diretor do departamento de telejornalismo. Nesta função começou a colocar em prática seu conceito de "responsabilidade social do jornalismo". Defendia que a TV Cultura tivesse um jornalismo profissional que não fosse "servil" ao estado e que mais do que "educativo" ou "cultural", fosse "público". Para Herzog, o jornalismo não deveria propor um "monólogo", mas um "diálogo com a sociedade", que superasse todo tipo de "paternalismo" e incorporasse "os problemas, esperanças, tristezas e angústias das pessoas às quais se dirige". Em 1975, enquanto buscava implementar suas idéias de um "jornalismo público", Vladimir Herzog foi chamado para depor no prédio do DOI-CODI, na rua Tutóia, para prestar esclarecimentos sobre o seu envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro. No DOI-CODI, foi brutalmente torturado sob o comando do capitão Ramiro e terminou assassinado quando se recusou a assinar o depoimento. Seu corpo foi arrastado até uma cela e pendurado numa grade simulando suicídio. O assassinato de Herzog transformou-se em escândalo nacional e foi decisivo para o movimento que levou à abertura política no Brasil. Em 1978, a Justiça declarou a união responsável por sua morte.

Fonte: http://www.midiaindependente.org/pt/red/2004/10/292474.shtml

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Sociedade de massa e comunicação de massa

Sociedade de massa
Tem origem no século XIX, com a industrialização. Enormes populações deixam suas cidades e concentram-se nos grandes centros urbanos. População é atraída pelo conforto (transporte, iluminação pública, alimentos, utensílios domésticos), emprego, entretenimento. Vivem em condições de vida subumanas. Forma-se uma massa: grande quantidade de pessoas sem ordenação, sem rosto, amorfas, heterogêneas.
A sociedade de massa carrega os seguintes traços: o homem é reificado, isto é, destituído de qualidades individuais, despersonalizado, coisificado (transformado em coisa, bem de consumo, produto). O homem torna-se alienado da vida e dos projetos de vida, da vida do país, pois não dispõe de tempo livre nem de instrumentos teóricos para exercer a crítica de si mesmo e da sociedade. Não pode nem consumir o que produz porque é mal remunerado.
Outras características da sociedade de massa: idolatram estereótipos, adoram signos, idolatram conteúdos, desde que se tornem espetáculos. Por isso, a estratégia de poder se baseia na apatia e passividade das massas.

Comunicação de massa
No século XIX, a tecnologia das comunicações dá origem à comunicação de massa.
Comunicação de massa é, portanto, o processo industrializado de produção e distribuição de mensagens culturais para a coletividade, por meio de veículos mecânicos (elétricos/eletrônicos), aos públicos que constituem a massa social com o objetivo de informá-la, educá-la, entretê-la ou persuadi-la, promovendo a integração individual e coletiva na realização do bem-estar da comunidade.

Referências bibliográficas:
BELTRÃO, Luiz e QUIRINO, Newton de Oliveira. Subsídios para uma teoria da comunicação de massa. São Paulo: Summus, 1986. P. 21 a 24.
GIOVANNINI, Giovani. Evolução na comunicação. Rio: Nova Fronteira, 1984. P. 23 a 83.

O jornal

Na primeira metade do século XVI, já circulavam nas grandes cidades da Europa noticiários e boletins de caráter político e econômico; eram os chamados livros de notícias (Londres, 1513, The Treve Encountre).
O Aviso-Relation oder Zeitung, semanário publicado em Estrasburgo e em Augusta, em 1609, é considerado o primeiro jornal, no sentido atual da palavra.
A terceira década do século XIX viu a tecnologia da impressão rápida e a idéia básica de um jornal combinarem-se no primeiro verdadeiro veículo de comunicação de massa.
“No final do século XIX, estava ficando claro para os pioneiros e cientistas sociais de então que os novos veículos de massa – jornais, livros e revistas, todos os quais amplamente utilizados na sociedade -, estavam trazendo importantes mudanças para a condição humana” (BELTRÃO).
O sociólogo norte-americano Charles Horton Cooley, em 1909, declarou haver quatro fatores que tornavam os novos veículos bem mais eficientes do que os processos de comunicação de qualquer sociedade anterior: os novos meios eram mais eficazes em termos de: expressividade (por incluírem uma ampla gama de idéias e sentimentos), permanência do registro (ou a superação do passar do tempo), presteza (ou a superação do espaço/distância) e difusão (ou acesso a todas as espécies de homens).
No século XVIII os jornais passam a fazer parte do cotidiano das pessoas. O leitor passou a ser a população e não mais um círculo fechado de eruditos. A comunicação passa de um processo de produção artesanal para ser produto da industrialização.
Nascem jornais como o Mercure Galant (jornal francês, 1672), dirigido a um público de baixa escolaridade, principalmente às mulheres. Dava notícias da corte e da cidade, falava de moda e decoração, leitores enviavam versos. O jornal publicava ainda elogios sobre as ações de Luís XIV e seu exército, o que rendia ao editor uma pensão do governo. Ou jornais como o The Spectator (jornal inglês, 1711), que tinha como marca a independência em relação a partidos políticos. Sua fórmula foi disseminada em jornais na Inglaterra, França, Holanda, Alemanha, Itália, Espanha etc.
A Grã-Bretanha é o berço dos primeiros jornais diários. Isso só é possível devido à instalação de um serviço regular e diário de Correio entre Dover e Londres, em 1691. Surgem Daily Courant (1702), Daily Post (1719), Daily Journal (1720), Daily Advertiser (1730). Com as publicações cotidianas, notícias irrelevantes dão lugar às primeiras manifestações concretas do jornalismo político.
Eis alguns efeitos do aparecimento do jornal: os críticos se queixavam de que jornais traziam à luz o que deveria ser mantido em segredo. Já os admiradores, diziam que os jornais abriam a mente das pessoas. Chegou-se a creditas aos jornais o aumento do índice de suicídios na Inglaterra do século XVIII porque os jornais publicavam cartas de suicidas. Isso dava a impressão de que o suicídio era algo comum. Leitores viam o fato do ponto de vista de quem o comete. As pessoas começaram a desenvolver um certo ceticismo diante do que liam. Isso porque havia discrepâncias de um mesmo relato em diferentes jornais, gerando desconfiança nas pessoas.
Os jornais contribuem para o aparecimento da “opinião pública”. O termo tem seu primeiro registro “em francês, por volta de 1750; em inglês, em 1781; e em alemão, em 1783.”
No século XVIII surge na sociedade uma arena de debates, com argumentação crítica e racional.
Em 1814, na Inglaterra, foi patenteada a primeira prensa a vapor por Frederik Koening, instalada na sede do The Times. Economizava mão-de-obra e imprimia mil exemplares por hora. O jornal podia ser impresso mais tarde e publicar notícias mais “fresquinhas”.
O jornal Post och Inrikes Tidningar, de 1645, Suécia, era o mais antigo do mundo em circulação até 2007, quando passou a ser on line.
O telégrafo surge em 1792, para uso militar. O telefone, em 1871. As agências de notícias passam a fazer parte das redações dos jornais, encarecendo, portanto, a produção de notícias. Com custos em alta, os jornais já não se bancavam apenas com as vendas. Nesse contexto, surge a publicidade, registrada primeiramente na Itália, em 1876, no jornal Il Secolo Gazeta de Milano, que insere anúncios econômicos em sua quarta página. Os jornais viram empresas, estabelecendo ligação entre a informação e a publicidade.


O jornal no Brasil
O primeiro jornal brasileiro não era impresso no Brasil. Em junho de 1808, Hipólito da Costa funda o Correio Braziliense (ou Armazém Literário). Era impresso em Londres e dirigido aos leitores do Brasil. Em tempos de educação escassa e difusão das idéias do Iluminismo, o jornalista era considerado educador. O Correio Braziliense era mensal, tinha 100 páginas, formato e aspecto de livro, trazia longos artigos, falava sobre política, comércio, artes, literatura e ciência. Publicava documentos sobre fatos do exterior, como a derrota de Napoleão (Batalha de Waterloo, 1815). Influenciou na Independência do Brasil. Chegava ao Brasil por vias normais e em 1809 foi proibido pelo governo e passou a circular pelas províncias clandestinamente. Tinha idéias liberais, era favorável ao fim do trabalho escravo, à liberdade de opinião, pregava reformas modernizadoras. Por tudo isso, incomodava as autoridades políticas portuguesas. O jornal resistiu até 1822, quando, com a Independência do Brasil, deixou de circular, porque Hipólito acreditava que a imprensa se desenvolveria naturalmente, tornando o seu jornal menos necessário à população.
Em 10 de setembro de 1808, a Impressão Régia imprime a Gazeta do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 60 000 habitantes), o primeiro jornal impresso no Brasil, redigido por frei Tibúrcio José da Rocha. O jornal era semanal, chapa branca, estava muito próximo ao poder e era bajulador. Informa sobre a vida administrativa e social do reino e, de vez em quando, publica notícias do exterior com meses de atraso. Circulou até 1821.
Algumas “fases” da imprensa: imprensa operária, imprensa negra, imprensa alternativa.

Curiosidades
O Diário de Pernambuco, de 1825, é o jornal mais antigo do Brasil ainda em circulação.
O Patriota, de1811, foi a primeira revista brasileira.
A Revista Ferroviária, de 1940, é a mais antiga do Brasil.

Algumas revistas brasileiras
Fon-Fon - 1907-1958 – cotidiano Rio de Janeiro (Gonzaga Duque, escritor)
Careta – 1908-1960 – revista de humor; fundada por chargista Jorge Schmidt
O Cruzeiro – 1928-1975 (Assis Chateaubriand) – grandes reportagens, dupla repórter-fotógrafo
Veja – 1968 (Mino Carta)

Um dos primeiros anúncios
“Quem quiser comprar uma morada de casas de sobrado, com frente para Santa Rita, fale com Ana Joaquina da Silva, que mora nas mesmas casas ou com o Capitão Francisco Pereira de Mesquita, que tem ordem para vender.”


Referências bibliográficas
LUSTOSA, Isabel. O Nascimento da Imprensa no Brasil.
SODRÉ, Nelson Wernek. História da Imprensa no Brasil
ROMANCINI, Richard e LAGO, Cláudia. História do Jornalismo no Brasil. Ed. Insular
MELO, José Marques de (ORG.). Imprensa Brasileira: Personagens que Fizeram História – Vol. 1. Imprensa Oficial

BELTRÃO, Luiz e QUIRINO, Newton de Oliveira. Subsídios para uma teoria da comunicação de massa. São Paulo: Summus, 1986. P. 21 a 24.
BORDENAVE, Juan Díaz. O que é comunicação. S. Paulo: Brasiliense, 2002 (27a. ed.). P. 12 a 29 e 35 a 41.
GIOVANNINI, Giovani. Evolução na comunicação. Rio: Nova Fronteira, 1984. P. 23 a 83.
LIMA, Venicio A. de. Mídia – Teoria e política. S. Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004.
BRIGGS, Asa e BURKE, Peter. Uma história social da mídia. – De Gutenberg à Internet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

A impressão

Costuma-se dizer que a criação da prensa gráfica foi um dos grandes feitos de todos os tempos. A prensa gráfica foi inventada por Gutenberg (1398-1468, Mogúncia, Alemanha), em 1450. Ele usou tipos móveis de metal para imprimir o primeiro livro da humanidade: a Bíblia de 42 linhas. Talvez Gutenberg tenha se inspirado nas prensas de vinho de sua região natal, banhada pelo rio Reno, para criar a prensa gráfica.
Antes do invento de Gutenberg, a China e o Japão já se utilizavam da “impressão de bloco”: um único texto, impresso em uma só folha, era entalhado na madeira.
A prensa gráfica se espalhou rapidamente e, em 1500, já haviam sido instaladas máquinas de impressão em mais de 250 lugares na Europa. O contrário ocorreu na Rússia, onde hoje são a Sérvia, a Romênia e a Bulgária. Isso porque a educação formal estava confinada ao clero. Em 1564, um russo levou a técnica para Moscou e teve sua oficina destruída por uma quadrilha.
As maravilhas da invenção da prensa gráfica não foram unanimidade. Os escribas não gostaram nada da novidade e viram seu ofício ameaçado de extinção. A prensa desagradou também aos homens da igreja, já que, com textos impressos, os homens de baixa hierarquia social podiam estudar sozinhos.
O surgimento dos jornais (século XVII) aumentou a ansiedade sobre os efeitos da nova tecnologia. Na Inglaterra, na década de 1660, sir Roger l’Estrange, o censor-chefe de livros, questionava se “mais males que vantagens eram ocasionados ao mundo cristão pela invenção da tipografia”. “Oh, tipografia! Como distorcestes a paz da humanidade!”, dizia.
A explosão da informação constitui-se um problema para os acadêmicos. A propósito, a expressão “explosão”, usada na época, foi uma metáfora imprópria da pólvora. Havia uma dificuldade de recuperar a informação e fazer a seleção e crítica de livros e autores. Havia também a necessidade de métodos para organizar e administrar a informação. Isso se parece com algo que vivemos nos dias de hoje? Na internet, por exemplo, temos muita informação e precisamos aprender a selecioná-la, organizá-la de acordo com nossas necessidades de comunicação.
Antes da invenção da prensa impressora no século XV, os padres, a elite política, os eruditos e os escribas começaram a perder seu monopólio de ler e escrever.
Se no início da Idade Média havia a escassez de livros, no século XVI já havia queixas de que havia tantos livros que as pessoas nem tinham tempo para ler. A enchente de livros resultou na ampliação das bibliotecas. Para encontrar livros nas prateleiras foi necessário criar catálogos por assunto e ordem alfabética de autores.
A invenção da prensa gráfica mudou a estrutura ocupacional das cidades européias (sobretudo da Itália, Alemanha, França): os impressores eram artesãos letrados, surgiram outras ocupações, como vendedores de livros e bibliotecários, corretores de provas tipográficas.

Efeitos do surgimento da imprensa
O surgimento da prensa gráfica ocasionou efeitos semelhantes ao surgimento da escrita para a humanidade: propiciou a disseminação de idéias, promoveu mudanças entre espaço e discurso (as idéias propagadas em um lugar poderiam ser levadas a outro lugar), surgem os diagramas e a organização visual dos livros acadêmicos do século XVI e promoveu a permanência e a fixação das mensagens. As publicações padronizaram e preservaram o conhecimento e deram margem a uma crítica à autoridade, favorecendo a disseminação de diferentes idéias sobre um mesmo assunto.
A diferença fundamental é que a prensa gráfica era potencializada pela automação, tornando os efeitos mais poderosos.
McLuhan chamou de “cultura das publicações”. A historiadora norte-americana, Elizabeth Eisenstein, em estudo publicado em 1979, considera a imprensa “a revolução não reconhecida”. Revisando a importante análise de Elizabeth Eisenstein, décadas depois, é preciso reconsiderar alguns exageros em seus estudos. “As alterações que ela salientou aconteceram por um período de menos de 3 séculos, da Bíblia de Gutenberg à Encyclopedia de Diderot (a famosa Enciclopédia, publicada entre 1751 e 1765 resultou em 35 volumes, num trabalho de D’Alembert, Diderot, Voltaire e Rousseau; tinha o objetivo de despertar a consciência política e transmitir o conhecimento. A publicação da Enciclopédia foi um evento crucial na história da comunicação, dada a sua importância política). É possível uma revolução tão lenta ser considerada uma revolução? A historiadora enfatiza demais a técnica de impressão em detrimento de escritores, impressores e leitores que usam a tecnologia segundo seus objetivos. Esses, sim, são os agentes da mudança. A técnica é mais o suporte do que a origem das mudanças sociais.

O fluxo de informações
O fluxo de informações segue o fluxo do comércio. Os mercadores, por mar ou terra, traziam as novidades com as mercadorias. Segundo o cientista político norte-americano Karl Deutsch, “A comunicação são os nervos do governo”, dada a importância de os governos fazerem suas ordens chegarem aos destinatários. A lentidão entre o envio e recebimento de uma mensagem incomodava e muito os governos.
Os imperadores faziam uso do sistema postal, na chamada Era do Papel (século XVI). O sistema postal era assim chamado porque homens e cavalos estacionavam em postos ao longo das estradas.
Mensagens iam a seu destino a uma velocidade de 10 a 13 km/h. Para se ter uma idéia, o tempo gasto para a chegada de mensagens de Roma a Paris era 20 dias e de Roma a Londres, 30 dias.
A comunicação por mar era mais rápida do que por terra. Os impérios dos primórdios da Europa moderna eram marítimos, com exceção da Rússia. No império russo, uma ordem imperial de Catarina, a Grande (1762-1796), levava 18 meses para ir de São Petersburgo a Kamtchaka, na Sibéria, e outros 18 meses para receber resposta.
Para se comunicar com seus vice-reis no México e no Peru, Felipe II, rei da Espanha, e seus sucessores dependiam de partidas e retornos dos navios que transportavam a prata do Novo Mundo para o porto de Sevilha, utilizando-se, assim, as comunicações (navios) transatlânticas. Cartas da Espanha para o México levavam 4 meses para chegar. Para Lima, de 6 a 9 meses.

Outras formas de comunicação
Comunicação oral na igreja - Na Idade Média, o altar ocupava o centro das igrejas. O sermão dos padres era obrigatório. As possibilidades do meio oral eram reconhecidas como retórica eclesiástica. Para o sociólogo Zigmunt Bauman, os púlpitos da Igreja Católica eram meios de comunicação de massa. Apesar de saudar a técnica da impressão como “graça de Deus”, Martinho Lutero (1483-1546) considerava a igreja como “casa da boca e não da pena”.
Comunicação oral acadêmica - O ensino nas universidades se baseava em palestras, debates formais, discursos ou declarações, testando o poder da retórica (a arte da fala e do gesto).
O canto era outro importante domínio da comunicação oral, especialmente a balada, canção que contava uma história.
Nos boatos ou “serviço postal oral”, as mensagens eram transmitidas em velocidade admirável. Disseminavam-se por motivos políticos ou espontâneos.
A cultura oral esteve presente nas academias, sociedades científicas, salões, clubes, cafés, tabernas, banhos públicos. Contadores de histórias faziam performances orais. Os cafés eram mantidos sob vigilância; os governos preocupavam-se com comentários subversivos.
Na comunicação escrita, a ocupação comum era a de escritor público (ver filme Central do Brasil). Cresce o número de ocupações ligadas à escrita, como conseqüência do letramento: contadores, escrivãos, escritores públicos, carteiros. Quando se fala de meio de comunicação escrito não se refere apenas a manuscritos, pena e tinta. Consideram-se também inscrições e epitáfios.
Comunicação visual – é a linguagem do gesto, muito valorizada na retórica ou nas artes plásticas, como as pinturas.
Imagens impressas / estampa: xilogravura, século XVI – bloco de madeira ou placa de cobre ou aço, com imagem cinzelada na placa (gravada) ou feita por corrosão/ácido (água forte).
Comunicação multimídia – combinava o apelo dos olhos e dos ouvidos simultaneamente; combinava as mensagens verbais e não-verbais, musicais e visuais: peças, balés, óperas, espetáculos (batalhas, execuções públicas), rituais (era uma maneira de transmitir uma mensagem de forma a ser melhor assimilada pela população, criando solidariedade. Ex.: missa, procissão etc.).
Iconotextos – imagens complementadas por textos, necessários para a compreensão de uma mensagem.
Interação/coexistência entre velhos e novos meios de comunicação: os manuscritos continuaram a ser usados (cartas familiares e comerciais), interação entre TV e cinema e interação entre mídia oral e impressa.


Referências bibliográficas:
BELTRÃO, Luiz e QUIRINO, Newton de Oliveira. Subsídios para uma teoria da comunicação de massa. São Paulo: Summus, 1986. P. 21 a 24.
BORDENAVE, Juan Díaz. O que é comunicação. S. Paulo: Brasiliense, 2002 (27a. ed.). P. 12 a 29 e 35 a 41.
GIOVANNINI, Giovani. Evolução na comunicação. Rio: Nova Fronteira, 1984. P. 23 a 83.